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O Mestre da Opção

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, céu, árvore e atividades ao ar livre Três jovens tendo cada um escutado sobre a grande santidade e as maravilhas feitas pelo Mestre Kilidi, tiveram a oportunidade de se conhecerem quando iam para a residência dele. Viajando junto eles discutiram sobre aquilo que eles sabiam sobre o caminho e suas dificuldades.
“Sinceridade para com seu mestre é essencial” – falou o primeiro jovem – “e eu deverei me concentrar sobre isso se eu for aceito como um estudante, para eliminar meu vil egoísmo”.
“Sinceridade” – falou o segundo – “certamente significa completa obediência, mesmo quando provocado a se rebelar. E eu certamente me guiarei por isto. Mas obediência também significa evitar hipocrisia – desejando internamente em desobedecer – e inclui generosidade sem orgulho. Isto eu tentarei”.
“Sinceridade evitando o egoísmo servil, obediência, desprendimento da hipocrisia, generosidade” – falou o terceiro – “estes são essenciais. Mas, eu escutei dizer que se o discípulo enxertar essas coisas no topo de seu eu inalterado, elas simplesmente se tornam mecânicas, mímicas, até mesmo escondendo características censuráveis que esperam por se manifestar. Certamente o discípulo verdadeiro é aquele que não está apenas fazendo o oposto do que ele sente ser ruim, nem carrega a charada da 'bondade'. Eles dizem que é um 'Buscador da Verdade' quem é mestre da opção em fazer o bem ou fazer o que tem que ser feito”.
Eles todos chegaram por fim à casa do Mestre e tiveram permissão para frequentar algumas de suas palestras e de participarem de vários exercícios de fortalecimento espiritual.
Certo dia o Mestre lhes disse: “Quer nós estejamos em casa ou na rua, nós estamos sempre numa viagem. Mas para dar a isto um efeito ilustrativo eu devo agora dar a vocês a chance de observar e participar numa viagem de um modo perceptível”.
Depois de eles estarem na estrada por algum tempo, o primeiro discípulo falou ao Mestre: “Viajar é bom, sem dúvida. Mas minha mente se inclina para 'o serviço', a estação onde a pessoa pode obter compreensão através do trabalho para outros e para a verdade”.
O Mestre respondeu: “Você gostaria de se fixar num entroncamento da estrada e servir às pessoas até quando eu lhe chame para estudos futuros?” – O jovem estava encantado por ter esta oportunidade de se encarregar de uma tarefa dele próprio, e os outros o deixaram ali para atender as necessidades dos viajantes.
Algum tempo depois o segundo discípulo falou para o Mestre: “Eu desejo soltar meu 'egocentrismo' de maneira que eu possa exercer a 'sinceridade'. Eu gostaria de poder ficar nesta cidade e explicar para as pessoas sobre o respeito que eu tenho por você e pelo Caminho. Elas, não têm compreensão disso”.
“Se este é o seu desejo, eu devo concedê-lo” – disse o Mestre. Deixando-o lá num estado de encantamento. Seguiram adiante, o Mestre e o discípulo que lhe restara.
Alguns dias depois, eles chegaram num lugar onde algumas pessoas brigavam sobre quais delas deveriam ter um certo pedaço de terra e lavrá-la e quem deveria ter outro pedaço.
O jovem falou ao Mestre: “Que estranho que eles não vêem que por trabalharem juntos eles todos poderiam se beneficiar muito mais; eles deveriam unir suas fontes e o seu trabalho para atingir a prosperidade”.
“Agora” – disse o Mestre – “você pode ver, que aqui você é 'o mestre da opção'. Você enxerga alternativas que outros não podem ver, sua opção é falar com eles ou então passar em silêncio”.
“Eu não quero falar com eles. Pois eles podem não me ouvir e provavelmente todos ficariam contra mim. Assim nada seria ganho e eu estaria me desviando do meu Caminho”.
“Muito bem, então, eu mesmo devo intervir” o Mestre se aproximou das pessoas e de alguma maneira ele fez com que elas lhes desse a terra. Eles se fixaram lá e após três anos, quando ele havia ensinado às pessoas a dividirem o trabalho, ele devolveu a terra e os rendimentos para eles e assim os dois seguiram viagem.
Quando retornavam, chegaram ao local onde tinham deixado o segundo discípulo e o jovem percebeu que aquele não os reconhecia. Suas aparências tinham mudado depois de anos de trabalho com a terra, o efeito do sol, a mudança nos trajes. Eles até mesmo falavam de uma maneira diferente devido ao longo contato com as pessoas do campo. Daí que para o segundo discípulo eles eram apenas campesinos. O Mestre se aproximou do segundo discípulo e pediu-lhe para dizer algo sobre o Mestre que o tinha deixado lá alguns anos atrás.
“Não me fale sobre ele – disse o segundo discípulo – pois ele abandonou-me aqui para fazer sua fama na região, me dando a entender que ele voltaria e me ensinaria, e eu não tive nenhuma palavra dele por esses anos todos”.
E, por alguma razão originada no além, tão logo que ele falou essas palavras pessoas da região apareceram e o prenderam. Os recém-chegados perguntaram ao chefe porque eles agiam desta maneira: “Esse homem” – falaram os habitantes – “veio aqui e falou sobre um Grande Mestre, de quem ele era discípulo. Nós o aceitamos e ele se tornou rico e bem sucedido em nossa terra. Agora nós descobrimos que ele é um mentiroso, uma fraude. Ele foi condenado a morte”. Eles tentaram, mas não houve nada que pudessem fazer, e o infeliz homem foi puxado se debatendo. “Você vê – disse o Mestre – "eu tentei protegê-lo, mas aqui, eu não sou 'o mestre da opção'.”.
Seguiram viagem, até que chegaram ao lugar onde o primeiro discípulo tinha se fixado, no entroncamento das estradas. Ele também não os reconheceu. Quando eles chegaram o Mestre perguntou onde eles poderiam encontrar água para beber. O discípulo lhe respondeu – “Eu estou completamente desiludido com vocês, viajantes. Eu tenho estado aqui por anos tentando ajudar as pessoas e tudo que eu recebi foi traição. Não vale a pena servir as pessoas. Mesmo o meu Mestre, me desertou há mais de três anos, ele não está preparado para servir-me voltando e me dando os ensinamentos que certamente todo homem está habilitado."
Nem bem essas palavras saíram de sua boca um grupo de soldados chegou e prendeu o homem, condenado a fazer trabalhos forçados. “Nós pensávamos que você fosse apenas um pobre devoto” – disse o capitão – “mas enquanto paramos para olhá-lo nos demos conta, no momento em que você gesticulava, que, pelo seu ar beligerante e suas ações violentas você era forte o bastante para fazer algum serviço para o nosso país”. Apesar do Mestre e seu discípulo argumentarem com eles, os soldados o levaram. “Como você pode ver, aqui eu não sou 'o mestre da opção'.”...
Deste modo o Mestre Kilidi mostrou ao seu único discípulo que tinha tido a paciência para entender que a compreensão dos eventos e sua ação estão inter-relacionadas e o modo como uma pessoa se comporta internamente e externamente irá determinar seu progresso tanto quanto qualquer coisa feita por qualquer outra pessoa.
Ele perguntou ao discípulo – “Se lhe perguntarem o que você aprendeu, o que você diria?”
O jovem falou: “As pessoas vêem as coisas isoladas, imaginando que, se elas fazem o que elas querem fazer elas certamente conseguirão o que elas querem. Mais adiante, seu bem traz frutos e seu mal também traz frutos, e ninguém pode permanecer no caminho dos frutos de uma pessoa. E eu aprendi que no caminho todos são entrelaçados; pessoas, lugares, eventos e ações. Finalmente eu aprendi que enquanto os pensamentos e as ações ruins de uma pessoa podem remover todas as tentativas de progresso, existe ainda um desígnio Misericordioso: pois me foi permitido continuar aprendendo apesar de minha recusa para exercer a opção quando eu fui mestre dela".
Naquele momento houve um som muito forte e o terceiro discípulo ficou consciente da 'Verdade', enquanto isto acontecia, o Mestre Kilidi desapareceu...
O jovem discípulo caminhou para a casa do seu Mestre, onde um grande número de homens devotos o esperavam, ele entrou na casa, colocou o tapete de oração do mestre Kilidi, que ele havia pegado, enquanto os homens devotos o observavam atentos e davam as boas-vindas ao seu novo líder o terceiro discípulo.
“Mestre” – eles disseram – “nós temos esperado aqui sobre um voto de segredo por três anos, desde que o Grande Mestre Kilidi nos deixou, dizendo que ele estava voltando para o céu e aquele que trouxesse de volta o seu tapete seria o seu sucessor”.
O homem que entregava a casa ao novo Mestre, estava bem protegido pelo manto, mas o pano moveu-se momentaneamente, deixando visível o seu semblante, que foi visto pelo novo Mestre, que reconheceu Kilidi, sorrindo diante dele...

Do livro: A Veiled Gazelle “Seeing how to See”.by Idries Shah . London 1977.